Antes de começarmos nossa conversa gostaria de deixar claro
alguns termos/conceitos que sempre estão presentes nos textos feministas mas
alerto que estes são termos sempre em construção e que podem ter uma alteração
de sentido aqui e ali dependendo do uso e de quem escreve. São eles:
Feminismo: é um movimento
político, filosófico e social que defende a equidade de direitos entre mulheres
e homens.
Machismo: é o comportamento,
expresso por opiniões e atitudes, de um indivíduo que recusa a equidade de
direitos e deveres entre os gêneros sexuais, favorecendo o masculino sobre o
feminino.
Patriarcado: é o conjunto de práticas interessado em mater as mulheres sob o
domínio dos homens. O patriarcado não é um grupo de homens conspiradores, mas
sim uma perspectiva cultural que favorece os homens e que é reproduzida em
todas as esferas sociais.
Sororidade: é o pacto de
irmandade entre mulheres. Uma solidariedade mútua que as torna mais fortes para
enfrentar o machismo e suas consequências.
Posto isso posso dizer que
por coincidência ou não, nestes últimos dias algo tem me atormentado: a
competição entre mulheres. Aproveitei então, já que estamos lançando o jornal
do PSOL-BM, para abrir o cantando do setorial de mulheres com esse tema que,
acredito eu, interessa muito a todas nós.
Desde que me entendo por gente sou uma pessoa extremamente
ciumenta e competitiva. A competição com outras mulheres, no meu caso,
iniciou-se há muito tempo. Minha casa sempre esteve cercada por elas. Mamãe,
maninhas, sobrinhas, sem contar as muitas primas e tias que existem na minha
família... A briga por quem seria a queridinha do papai, do titio, do vovô.
Sim, quase sempre girava em torno da atenção de um homem. Fui crescendo e levei
isso para a escola, amizades, namoros e até pro ambiente de trabalho, na
verdade eu preciso escrever um texto só pra este último, visto que o fato de eu
ter me tornado feminista está intimamente ligado ao machismo que sofri na
indústria. Mas por enquanto, eu gostaria mesmo de falar sobre a relação que
estabelecemos com nossos namorados pois talvez essa seja a parte mais difícil
pra maioria por envolver um turbilhão de emoções e conflitos internos e
externos.
Se eu olhar pra trás vou
ver que em todos os meus relacionamentos amorosos tenho recordações de
situações desagradáveis sobre esse assunto, às vezes era a amiga, a prima, a
irmã e até mesmo a mãe dele, mas a ex
(ah, a ex!), é simplesmente
recordista mundial. Eu sei que às vezes a ex do
seu amor é mesmo o tipo de pessoa difícil que não aceitou o fim do
relacionamento e pode estar atrapalhando sua vida, contudo e quando ela está
quietinha no seu canto e você insiste em "ressuscitá-la"? E quando
você usa a vida sexual dela para difamá-la? Ou quando você fica comparando o
corpo dela ao seu apenas para se sentir um pouco melhor ou segura? O
patriarcado com certeza agradece a todas nós pela reprodução do machismo. A
gente, às vezes, só esquece que a ex
também é mulher e como tal sofre as mesmas opressões que você e eu, assim,
quando você a chama de puta, vadia, vaca etc. você não pensa que o dedo que
aponta para ela um dia pode estar apontado para você. Já parou pra refletir que
a sua opinião sobre ela pode estar completamente distorcida (ou
condicionada?)
pela visão dele? Não estou dizendo que devemos, necessariamente, ser amigas das
exs dos nossos atuais ou
das atuais dos nossos exs, entretanto é nosso
dever desconstruir esse ódio que você nem se lembra de onde é, quando surgiu.
Para concluir, somos seres
humanos e sentimos raiva, ódio, rancor e mágoa pelas pessoas, para além desta
questão, contudo, é extremamente necessário entender se este sentimentos são frutos do patriarcado, de
uma cultura machista, que insiste em nos doutrinar a enxergar homens como
troféus.
Eu não quero mais competir com outras mulheres pois eu quero ser
amiga das amigas, das alunas, das colegas de trabalho, das primas, das
cunhadas, até das exs... quem sabe um dia.
Eu quero ser amiga de todas as mulher que passarem pela minha vida.
Espero que a sororidade não seja apenas uma
palavra no vocabulário feminista, mas que possamos vivenciá-la na vida real, em
todos os momentos das nossas vidas.
Por Sara Câmara- Setorial de Mulheres PSOL-BM
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