Por que lembrar? Nossa
memória é que dá sentido às nossas vidas. Em tempos difíceis ou de felicidades
e realizações é comum lembrarmos de episódios marcantes que nos levaram até o
presente. Essas recordações, entre os infinitos significados possíveis, podem
ser combustível para superação de dificuldades ou algo que nos lembre o que já
aprendemos com a vida.
Como recortamos o
passado? Ninguém lembra de toda sua trajetória. Nós escolhemos/lembramos
episódios que dão sentido ao que vivemos hoje e ao que queremos pro futuro. Individualmente,
nós é que fazemos esse recorte, porém, quando se trata de sociedades/coletivos,
quem escolhe o que será lembrado dando sentido à existência de um grupo é quem
tem poder. Grupos poderosos são quem escolhem quem e o quê deve ser retratado
em uma estátua na praça pública, qual o nome de uma escola, rua ou prédio
público. Dessa forma, a sociedade tende a valorizar um passado que reforça o
poder de quem controla as lembranças/memória.
Em Barra Mansa temos
várias estátuas de “barões” e militares espalhadas pela cidade. Pessoas das
camadas populares estão de fora do que deve ser homenageado e visto como
importante no passado. Inclusive, há uma prática de dar nomes a prédios
públicos de pessoas da elite política ainda vivas (ex: prefeitura). Não seria
diferente em uma cidade em que historicamente coronéis e famílias tradicionais
têm o poder. As lutas sociais foram apagadas.
Essa seção (meMOV) tem o objetivo de lembrar as
lutas sociais ocorridas na cidade e dar um sentido popular à nossa história. Nosso
primeiro texto homenageia Júlio Lopes Cajazeiras, lutador social assassinado
por militares no Batalhão de Barra Mansa em 06 de janeiro de 1952, há 65 anos.
Júlio Cajazeiras? Presente! Por
Direitos e pela Paz
Nascido
no interior da Bahia, aprendeu a profissão de alfaiate em Feira de Santana e em
1942 migrou para o Rio de Janeiro. Na capital o jovem alfaiate ingressou no
movimento sindical, por reajuste de salários e pagamento de horas extras. Durante a
Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi alfaiate da intendência de guerra da
Força Expedicionária Brasileira (FEB), integrando a Liga de Defesa
Nacional, movimento contra a ditadura Vargas (Estado Novo) e o fascismo. Seus
companheiros de época informaram que voluntariamente sacrificou domingos e
horas de folga confeccionando fardas para os pracinhas. Em
1945, Júlio entrou no Partido Comunista do Brasil (PCB), tendo participado da campanha pela anistia aos presos
políticos do Estado Novo e da luta pela Constituinte.
Sua história em Barra Mansa tem início em 1948, onde ocupou posição de destaque nas lutas operárias, atividade que o levou a diversas prisões. Foi preso em 1949, por ocasião da greve dos operários da Nestlé, e novamente em 1950, por ocasião da greve na Siderúrgica Barra Mansa por abono de natal. No Congresso dos Partidários da Paz em Niterói, movimento organizado pelo partido comunista que se opunha à possível participação brasileira na Guerra da Coréia (1950-1953), reuniu 2860 assinaturas para o “apelo de um pacto de paz”.
Sua história em Barra Mansa tem início em 1948, onde ocupou posição de destaque nas lutas operárias, atividade que o levou a diversas prisões. Foi preso em 1949, por ocasião da greve dos operários da Nestlé, e novamente em 1950, por ocasião da greve na Siderúrgica Barra Mansa por abono de natal. No Congresso dos Partidários da Paz em Niterói, movimento organizado pelo partido comunista que se opunha à possível participação brasileira na Guerra da Coréia (1950-1953), reuniu 2860 assinaturas para o “apelo de um pacto de paz”.
Figura conhecida pelos agentes da
repressão na cidade, no dia 06 de janeiro de 1952 Júlio Lopes Cajazeiras foi preso
por uma das patrulhas do exército, levado para o 1°
Batalhão de Infantaria Blindada (1º BIB) de Barra Mansa e selvagemente
espancado e torturado por várias horas. No mesmo dia foi transferido para uma
delegacia de polícia, onde faleceu ao dar entrada. Os nomes envolvidos no seu
assassinato, segundo os jornais de época, são: Capitão Otoniel, Tenente
Medeiros e Tenente Hélio Régua Barcelos, posteriormente envolvido na repressão
da ditadura militar contra os trabalhadores da região.
Júlio morreu por lutar
por direitos e pela paz. Foi homenageado em diversos jornais operários, em especial, pelos jornais comunistas, e em
1960 foi inaugurada uma rua com seu nome em Volta Redonda. O nome da rua mudou.
É provável que a ditadura o tenha feito anos depois. Porém, nós não
esqueceremos sua luta e de tantos outros e outras, das quais somos herdeiros e
herdeiras! Ela também é nossa! Obrigado Júlio, sua memória nos move!
FONTES: Jornal Imprensa Popular de 08/01/1952
e 01/03/1953; Jornal Novos Rumos de 27/05 a 02/06/1960; Jornal Voz Operária de
24/04/1964; Verbete Liga de
Defesa Nacional, http://cpdoc.fgv.br; UFF-VR, O 1° Batalhão de Infantaria Blindada do Exército e a repressão militar
no Sul Fluminense, 2015)
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